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"Relógio! Deus sinistro, hediondo, indiferente,
Que nos aponta o dedo em riste e diz: ‘Recorda!
A Dor vibrante que a alma em pânico te acorda
Como num alvo há de encravar-se brevemente;
...
Recorda: o Tempo é sempre um jogador atento
Que ganha, sem furtar, cada jogada! É a lei.
O dia vai, a noite vem; recordar-te-ei!
Esgota-se a clepsidra; o abismo está sedento."
(C. Baudelaire traduzido por I.Junqueira)
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As revoluções burguesas têm seu débito para com o relógio e esta figura do tempo ligada a ele: a linha sem começo nem fim apontando para a frente, para o futuro, para o novo. A própria idéia de revolução depende desta imagem. Paradoxalmente, o relógio - com seu tempo linear todo amarrado no que vem antes e no que vem depois - também foi modelo para um outro tipo de imagem: a de um tempo mecânico, mecanicista, determinista. O futuro dado pelo passado! Sem brechas, sem invenção! Felizmente, a roda dentada quebrou os dentes e o trem da
história saiu dos trilhos. Na atualidade, voltamos a navegar num mar de incertezas! Amém!
O passado não é um, assim como as histórias que se contam são várias. Do passado fazem parte cacos e fragmentos dispersos, as esperanças não cumpridas, o que poderia ter sido. Estilhaços recolhidos que, como bombas, podem estourar o continuum do tempo e abrir portas entre o antes, o agora e o depois. A idéia de uma história aberta combina com a imagem de uma palavra aberta. Aberta a interpretações. Como a palavra divina, não é transparente, não pode ser esgotada.
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"E toma, para que a lembrança
desta felicidade seja eterna,
recebe como herança,
a coroa que tens aqui!
Atira-a para o alto, mais longe,
ao assalto da escada celeste,
prende-a às estrelas!"
(F.W.NIETZSCHE)
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Nasci em março de 1964, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Adoro ser carioca! Trabalho com com comunicação e cultura: TV, cultura política, novas tecnologias etc.. Escrevo, pesquiso, leciono. Curto artes plásticas, visuais, digitais. Desenho, faço experiências digitais. Gosto de navegar e publicar na internet.
"Após o cansaço da busca,
aprendi o encontro.
Após afrontar vento frontal,
navego com todos os ventos."
(Nietzsche, A Gaia Ciência)
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:: Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006 ::
DESPERTAR URBANO
Brinco com o fogo
Na aveludada madrugada
Vermelhas, minhas mãos
Protegem do vento as chamas
A parafina escorre liquefeita
Derrete plástica
Gotas sobrepõem-se translúcidas
No papel onde escrevo
Transparentes vestígios
Não consigo conter o vento
Que as chamas apaga
Reacendo-as com um ínfimo fósforo
Vultos mornos, inconstantes
Tremeluzem em meus olhos
Dançam misteriosos
Em dramáticas tramas
Multiplicadas em incansáveis sombras
As plantas me seduzem, me envolvem
Capturam meu olhar sonolento
Instáveis, as chamas tentam escapar dos pavios
Almejam independência
Desejam queimar adiante, adiante, adiante
Sempre além
Chamas rebeldes focalizam meu olhar
Na madrugada que desvanece
Do veludo profundo
Em suave cetim
Escrevo à luz do fogo
Enquanto o vento insiste
Em me expulsar de seus domínios
Escrevo por teimosia
Admirando a parafina
Que se dobra e recurva dúctil
Sinto o vento em minhas costas
Em todo o meu corpo
Em minha visão - vejo-o
Escrevo admirando as formas dançantes
Que, pouco a pouco
Têm diluído o seu mistério
Pela luz da manhã
Na vizinhança, invisível
Um galo canta
Desafiando conceitos de urbano
Refazendo a cidade
Plástica parafina
Chama sedutora
Magnetizando meu olhar
A manhã se instala
Certa, clara
Meu corpo pede cama
Assopro, apago as velas
Coloco a tampa na caneta
Fecho o caderno
Vou
:: ISABEL GUIMARÃES 2/2/2006 02:34:06 PM [+] ::
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